" MENSAGEM DO DIA "
MENSAGENS e POESIAS

JUNHO de 2005


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01/Junho/2005:

“ TRANSPARÊNCIA-SONHO ”

“Do céu ao mar
Verticalidade azul-lilás,
cintilâncias de ouro em pó,
transparência-sonho.

Lá e cá ilumina a ilusão
que seduz e encanta
as curvas da mulher-sereia.
Tiaras prata e bronze
em celestes volutas do ser e do não-ser...

Tarde morna,
Serenidade-tempo
Calor mágico de fêmea...
quase início de Outono.”

( Wanderlino Arruda - 'Biografia' - 1934/**** )

02/Junho/2005:

“ SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ ”

“Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
Chore o quanto quiser,
Mas não brigue com Deus por Ele haver me levado
Se não quiser chorar, não chore
Se não conseguir chorar, não se preocupe
Se tiver vontade de rir, ria.
Se alguns amigos, contarem algum fato a meu respeito
Ouça e acrescente sua versão.

Se me elogiarem demais, corrija o exagero
Se me criticarem demais, defenda-me
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri
Mostre que eu tinha um pouco de santo,
Mas estava longe de ser o santo que me pintam
Se me quiserem fazer um demônio,
Mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio.
Mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo.

Espero estar com Ele o suficiente
Para continuar sendo útil a você, lá onde estiver.
E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim,
Diga apenas uma frase:
Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!
Aí então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la mas não faz mal.

Outros amigos farão isso no meu lugar
E, vendo-me bem substituído,
Irei cuidar de minha nova tarefa onde estiver
Mas, de vez em quando,
De uma espiadinha na direção de Deus.

Você não me verá,
Mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele
E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai
Aí, sem nenhum véu a separar a gente,
Vamos viver, em Deus, a amizade
Que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas ?
Então ore para que nós vivamos
Como quem sabe que vai morrer um dia,
E que morramos como quem soube viver direito.

Amizade só faz sentido
Se traz o céu para mais perto da gente,
E se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Mas, se eu morrer antes de você,
Acho que não vou estranhar o céu...

Ser seu amigo... já é um pedaço dele. ”

( Autor Desconhecido - 'Biografia' - xxxx/xxxx )
alguns atribuem esta poesia a Chico Xavier

03/Junho/2005:

“ ASAS ”

“Complicado o desejo do homem de voar,
Sem asas e sem leveza nada sublima,
Somente as aves são hábeis o suficiente,
Sábias a contento de saber fazer seus malabarismos,
Seus pousos divinos,
Mas não há quem tire do Homem,
A arte do criar e voar por mundos aonde esses seres nunca haverão de pisar. ”

( Cris Passinato - 'Biografia' - 1973/**** )

06/Junho/2005:

“ CHARME ESMERALDA ”

“ Teu charme é existência muita,
Olhar de pura esmeralda,
sorrisos de plena alegria,
verde alegria,
insinuante, encantadora.
És cada vez mais linda!
Tua beleza desfila manhãs
com cintilantes majestades,
sedução, magia,
mágica sedução.
Em tua presença,
tempo é não-tempo,
vôo e sonho, encantamento.
As horas passam depressa,
saltitantes, lúcidas, lúdicas,
ligeiras, ligeiras,
brisa em vento de mar,
ou em montanhas de Minas.
Dizendo que a vida ilumina,
tua inteligência vibra e voa
com entusiasmo paira-pairando,
em desfiles de pura poesia.
Por onde passas, por onde vives,
com teus olhos tão verdes,
o horizonte deixa saudades
em definitivas lembranças.
Cada manhã é tempo de ser feliz,
eternidade de ti,
eterno tempo. ”

( Wanderlino Arruda - 'Biografia' - 1934/**** )

07/Junho/2005:

“ SIDERAÇÕES ”

“ Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta... ”

( Cruz e Sousa - 'Biografia' - 1862/1898 )

08/Junho/2005:

“ O BAILE NA FLOR ”

“Que belas as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campeia sem par!...
Ali das bromélias nas flores doiradas
Há silfos e fadas, que fazem seu lar...
E, em lindos cardumes,
Sutis vaga-lumes
Acendem os lumes
P’ra o baile na flor.

E então — nas arcadas
Das pet’las doiradas,
Os grilos em festa
Começam na orquestra
Febris a tocar...
E as breves
Falenas
Vão leves,
Serenas,
Em bando
Girando,
Valsando,
Voando
No ar!... ... ”

( Castro Alves - 'Biografia' - 1847/1871 )

09/Junho/2005:

“ AGONIA DE UM FILÓSOFO ”

“ Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto...!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal ! ”

( Augusto dos Anjos - 'Biografia' - 1884/1914 )

10/Junho/2005:

“ DIFICULDADES ”

“ Recebe cada provação sem revolta nem desânimo.
Procura enxergar o outro lado da dificuldade, a traduzir mensagens para o espírito.

Doença no corpo - pausa para meditação.
Problemas na família - oportunidade de reajuste.
Obstáculos naturais - exercício para a alma.

Toda dor tem seu lado positivo.
Não te deixes levar pelo desânimo e segue para frente.
O objetivo de toda dificuldade é renovar a alma,
a fim de elevar o ser às esferas maiores.

Amanhã, quando esta dor passar,
estarás mais forte e mais sensível,
compreendendo melhor o amor e a sabedoria! ”

( Scheilla / Clayton B. Levy - 'A Mensagem do Dia' )

13/Junho/2005:

“ NAVEGAR É PRECISO ”

“ Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
'Navegar é preciso; viver não é preciso'.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”

[Nota de SF "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]

( Fernando Pessoa - 'Biografia' - 1888/1935 )

14/Junho/2005:

“ CICLO VITAL ”

“Pessoas vão e vem,
Palavras vem e vão,
Promessas firmam-se e caem
Pela mesma terra que comerá seus olhos.
Sua carne que apodrecerá
Ao caos perecerá
Assim o ciclo se confirmará
Por séculos e séculos... ”

( Cris Passinato - 'Biografia' - 1973/**** )

15/Junho/2005:

“ LÉSBIA ”

“ Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atracões do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso... ”

( Cruz e Sousa - 'Biografia' - 1862/1898 )

16/Junho/2005:

“ A QUEIMADA ”

“ Meu nobre perdigueiro! vem comigo.
Vamos a sós, meu corajoso amigo,
Pelos ermos vagar!
Vamos já dos gerais, que o vento açoita,
Dos verdes capinais n’agreste moita
A perdiz levantar!...
Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...
Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos
O céu se iluminou.
Eis súbito da barra do ocidente,
Doudo, rubro, veloz, incandescente,
O incêndio que acordou!
A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
Espantado a gritar.
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,
Galopando no ar.
E a chama lavra qual jibóia informe,
Que, no espaço vibrando a cauda enorme,
Ferra os dentes no chão...
Nas rubras roscas estortega as matas...,
Que espadanam o sangue das cascatas
Do roto coração!...
O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,
A juba, a crina atira desgrenhado
Aos pampeiros dos céus!...
Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...
Queimado..., retorcendo na hecatomba
Os braços para Deus.
A queimada! A queimada é uma fornalha!
A irara — pula; o cascavel — chocalha...
Raiva, espuma o tapir!
... E às vezes sobre o cume de um rochedo
A corça e o tigre — náufragos do medo —
Vão trêmulos se unir!
Então passa-se ali um drama augusto...
N’último ramo do pau-d’arco adusto
O jaguar se abrigou...
Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares...
E após... tombam as selvas seculares...
E tudo se acabou!.. ”

( Castro Alves - 'Biografia' - 1847/1871 )

17/Junho/2005:

“ NOSSO TEMPO (I a IV)”
- A Osvaldo Alves -

I

“ Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos. ”
(... continua)

( Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )

20/Junho/2005:

“ NOSSO TEMPO (V a VIII)”
- A Osvaldo Alves -

V

“Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme. ”

( Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )

21/Junho/2005:

“ UMA CRIATURA ”

“ Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a vida. ”

( Machado de Assis - 'Biografia' - 1839/1908 )

22/Junho/2005:

“ O MORCEGO ”

“ Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto! ”

( Augusto dos Anjos - 'Biografia' - 1884/1914 )

23/Junho/2005:

“ BOM DIA, PRESIDENTE ! ”

“ Ah, se eu pudesse diria:
Bom dia, Senhor Presidente,
Como o senhor está, está contente?
E daí de cima, olhando para baixo,
Como o senhor vê a gente?
O senhor acha que estamos contentes?

Infelizmente senhor, a vida está deprimente e,
Sabes por quê ? Porque, simplesmente,
Não há esperança, pois a tempestade não passa
Para dar espaço a bonança.
O senhor sabia que a vida passa e
Junto com ela, passam os presidentes...,
E esses perdem a oportunidade em mostrar que são competentes.

Por favor, Presidente, ainda há tempo
De se fazer alguma coisa pela gente !
Aproveite o tempo que falta e
Revolucione tudo aquilo que tinha em mente.
Presidente, nós acreditamos na sua palavra e
Na sua história, que do nordeste foi procedente e,
Demos-lhe o privilégio de caminhar, humildemente com a gente.

Mais uma vez, esqueça as fantasias,
Não seja como os outros, seja diferente !
Mostre-nos que um homem simples
Também é capaz de conduzir os destinos,
De uma nação constituída de homens, mulheres e crianças,
Iguaizinhos à Vossa Excelência, ou seja,
Pobres e humildes, como sempre, porém decentes.

Um grande abraço Presidente. ”

( Jorge Gerônimo Hipólito - 'Biografia' - 1952/**** )

24/Junho/2005:

“ POEMA DE SETE FACES ”

“ Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos ! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração.

Eu devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. ”

( Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )

27/Junho/2005:

“ MAIS UM POUCO ”

“ - Quem fala de paciência se refere à esperança.
Em vista disso, paciência quer dizer: 'saber esperar'... - Emmanuel

Quando estiveres à beira da explosão na cólera, cala-te mais um pouco e o silêncio nos poupará enormes desgostos.

Quando fores tentado a examinar as consciências alheias, guarda os princípios do respeito e da fraternidade mais um pouco e a benevolência nos livrará de muitas complicações.

Quando o desânimo impuser a paralisação de tuas forças, na tarefa a que foste chamado, prossegue agindo no dever que te cabe, exercitando a resistência mais um pouco e a obra realizada ser-nos-á bênção de luz.

Quando a revolta espicaçar-te o coração, usa a humildade e o entendimento mais um pouco e não sofreremos o remorso de haver ferido corações que devemos proteger e considerar.

Quando a lição oferecer dificuldades à tua mente, compelindo-te à desistência do progresso individual, aplica-te ao problema ou ao ensinamento mais um pouco e a solução será clara resposta à nossa expectativa.

Quando a idéia de repouso sugerir o adiamento da obra que te cabe fazer, persiste com a disciplina mais um pouco e o dever bem cumprido ser-nos-á alegria perene.

Quando o trabalho te parecer monótono e inexpressivo, guarda fidelidade aos compromissos assumidos mais um pouco e o estímulo voltará ao nosso campo de ação.

Quando a enfermidade do corpo trouxer pensamentos de inatividade, procurando imobilizar-te os braços e o coração, persevera com Jesus mais um pouco e prossegue auxiliando aos outros, agindo e servindo como puderes, porque o Divino Médico jamais nos recebe as rogativas em vão.

Em qualquer dificuldade ou impedimento, não te esqueças de usar um pouco mais de paciência, amor, renúncia e boa vontade, em favor de teu próprio bem-estar.

O segredo da vitória, em todos os setores da vida, permanece na arte do aprender, imaginar, esperar e fazer mais um pouco. ”

( André Luiz / Chico Xavier - 'Biografia' - 1910/2002 )

28/Junho/2005:

“ SÉCULO XXI ”

“ Há muitos anos você anda em círculos,
Já não lembra de onde foi que partiu,
Tantos desejos soprados pelo vento,
Se espatifaram quando o vento sumiu.

Você vendeu sua alma ao acaso,
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços,
Cacos de vida de uma vida inteira.

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum,
Baby, oh Baby, bem vinda ao Século XXI.

Você cruzou todas as fronteiras,
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura,
Por um tempo que faz tempo passou.

Agora é noite na sua existência,
Cuja essência perdeu o lugar,
Talvez esteja aí pelos cantos,
Mas está escuro pra poder encontrar.

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum,
Baby, oh Baby, bem vinda ao Século XXI
. ”

( Raul Seixas - 'Biografia' - 1945/1989 )

29/Junho/2005:

“ O PEQUENO PRÍNCIPE ”
- Capítulo XXI - 1943 -

“ E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.

O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada!

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é, agora, única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida, um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar. ”

( Antoine de Saint-Exupéry - 'Biografia' - 1900/1944 )

30/Junho/2005:

“ ORAÇÃO DIANTE DE UMA CÉDULA DE DINHEIRO ”

“ Senhor, esta cédula mete-me medo.
Conheces seu segredo, conheces sua história.
Como é pesada.
Impressiona-me porque não fala e jamais há de dizer o que oculta em suas dobras.
Jamais confiará quanto representa de esforços e de lutas.
Traz em si o suor humano. Está manchada de sangue, de desencanto, de dignidade espezinhada.
É rica de todo peso de humano trabalho que ela contém e que lhe dá valor.

É pesada, Senhor, muito pesada.
Impressiona-me, mete-me medo porque traz mortes na consciência. Todos os pobres diabos que se mataram de trabalho por causa dela, para possuí-la, para tê-la entre as mãos algumas horas, para dela obter um pouco de prazer, de alegria, de vida.

Entre quantos dedos terá passado, Senhor, e que fez ela nessas longas viagens silenciosas?
Ofereceu rosas brancas à noiva radiosa, pagou os bolos da festa do batizado, deu de comer ao bebê corado.
Foi ela quem botou o pão na mesa do lar, desatou o claro riso dos jovens e a alegria dos mais velhos.
Pagou a consulta do médico salvador, deu o livro que instrui o garotinho, vestiu a donzela.
Mas ela também fez seguir a carta de rompimento, pagou, no ventre da mãe, o trucidamento da criança.
Foi ela quem mandou correr o álcool e fez o bêbado.
Projetou o filme proibido para crianças e gravou o disco asqueroso.
Seduziu o adolescente e fez do adulto um ladrão.
Por algumas horas, comprou o corpo de uma mulher.
Foi ela quem pagou a arma do crime e as tábuas de um caixão.

Oh, Senhor, eu Te ofereço esta cédula com todos os seus mistérios gozosos e com todos os seus mistérios dolorosos.
Digo-Te muito obrigado por toda vida e alegria que ela distribuiu.
Peço-Te perdão pelo mal que ela fez.
Mas, sobretudo, Senhor, eu T'a ofereço por todo o trabalho do homem.
De tudo isso ela é símbolo e amanhã, afinal, tudo isso, moeda inalterável, em Tua Vida Eterna será transfigurado. ”

( Michel Quoist - 'Biografia' - 1921/**** )

 

 

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