" MENSAGEM DO DIA "
MENSAGENS e POESIAS

JULHO de 2006


www.nossosaopaulo.com.br

Voltar ao Atual

03/Julho/2006:

“ RAINHA DO CÉU ”
- Parnaso de Além-Túmulo - 1932 -

Excelsa e sereníssima Senhora,
Que sois toda Bondade e Complacência,
Que espalhais os eflúvios da Clemência
Em caminhos liriais feitos de aurora !...

Amparai o que anseia, luta e chora,
No labirinto amargo da existência.
Sede a nossa divina providência
E a nossa proteção de cada hora.

Oh! Anjo Tutelar da Humanidade.
Que espargis alegria e claridade
Sobre o mundo de trevas e gemidos;

Vossa amor, que enche os céus ilimitados,
É a luz dos tristes e dos desterrados,
Esperança dos pobres desvalidos !... ”

Antero de Quental: nascido na ilha de São Miguel, nos Açores, em 1842, e desencarnado por suicídio, em 1891. É vulto eminente e destacada nas letras portuguesas, caracterizando-se pelo seu espírito filosófico.

( Antero de Quental / Chico Xavier - 'Biografia' - 1842/1891 )

04/Julho/2006:

“ A MÚSICA BARATA ”
- Antologia Poética - 1982 -

Paloma, Violetera, Feuilles Mortes.
Saudades do Matão e de mais quem ?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.

Valsas e canções engavetadas
num armário que vibra de guardá-las,
no velho armário, cedro, pinho ou...?
(O marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)

Não quero Handel para meu amigo
nem ouço a matinada dos arcanjos,
Basta-me
o que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos, se perdeu. ”

( Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )

05/Julho/2006:

“ DEBAIXO DO TAMARINDO ”
- EU - 1912 -

“No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui ! ”

( Augusto dos Anjos - 'Biografia' - 1884/1914 )

06/Julho/2006:

“ AQUARELA ”
- - 1983 -

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo,
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
E se a gente quiser, ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida,
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá).
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá).
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (que descolorirá...). ”

Toquinho - Vinicius de Moraes - M. Fabrizio - G. Morra

( Toquinho - 'Antonio Pecci Filho' - 1946/**** )

07/Julho/2006:

“ CARNAL E MÍSTICO ”
- Broquéis - 1893 -

“Pelas regiões tenuíssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.

N'uma evaporação de branca espuma
Vão diluindo as perspectives claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.

E então, na treva, em místicas dormências
Desfila, com sidéreas lactescências,
Das Virgens o sonâmbulo cortejo...

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo... ”

( Cruz e Sousa - 'Biografia' - 1862/1898 )

10/Julho/2006:

“ NA FONTE ”
- Cachoeira de Paulo Afonso - 1870 -

“I

“Era hoje ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.

II

“Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:

Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como u’a moça a brincar.

III

“Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.

IV

“Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!

V

“Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no balceiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi?! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.

VI

“Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro d’água cair.

VII

“Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só!...

VIII

“Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim! ”

( Castro Alves - 'Biografia' - 1847/1871 )

11/Julho/2006:

“ O REMORSO ”
- Parnaso de Além-Túmulo - 1932 -

“ Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.

Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!...
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: -

'Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo ?'

Ele riu-se e clamou para meus ais:
'Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!' ”

Antero de Quental: nascido na ilha de São Miguel, nos Açores, em 1842, e desencarnado por suicídio, em 1891. É vulto eminente e destacada nas letras portuguesas, caracterizando-se pelo seu espírito filosófico.

( Antero de Quental / Chico Xavier - 'Biografia' - 1842/1891 )

12/Julho/2006:

“ PLENOS PODERES ”
- Plenos Poderes - 1962 -

“A PURO sol escrevo, em plena rua,
em pleno mar, aonde posso canto,
somente a noite errante me detém
mas em sua interrupção recolho espaço,
recolho sombra para muito tempo.

O trigo negro da noite cresce
enquanto meus olhos medem a pradaria
e assim, de sol a sol, faço as chaves:
busco na obscuridade as fechaduras
e vou abrindo ao mar as portas rasgadas
até encher os armários com espuma.

Eu não me canso de ir e de voltar;
não me pára a morte com sua pedra,
não me canso de ser e de não ser.

Às vezes me pergunto de onde,
se de pai ou de mãe ou cordilheira,
herdei os deveres minerais,

as linhas de um oceano aceso
e sei que sigo e sigo porque sigo
e canto porque canto e porque canto.

Não existe explicação para o que acontece
quando fecho os olhos e circulo
como entre dois canais submarinos,
um a morrer me leva em sua ramagem
e o outro canta para que eu cante.

Assim pois de não ser estou composto
e como o mar assalta o arrecife
com cápsulas salgadas de brancura
e retrata a pedra com a onda,
assim o que na morte me rodeia
abre em mim a janela da vida
e em pleno paroxismo estou dormindo.
A plena luz caminho pela sombra. ”

tradução: Eng. Celio Franco

( Pablo Neruda - 'Biografia' - 1904/1973 )

13/Julho/2006:

“ O ENTERRADO VIVO ”
- Antologia Poética - 1982 -

“É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência. ”

( Carlos Drummond de Andrade - 'Biografia' - 1902/1987 )

14/Julho/2006:

“ ADIAMENTO ”
- Ficções do Interlúdio - 1995 -

“ Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir... ”

( Álvaro de Campos / Fernando Pessoa - 'Biografia' - 1888/1935 )

17/Julho/2006:

“ DROGA ”
- - xx -

“A maior droga
É a que amortece,
Não só a que entontece.
Quero desintoxicar-me
Desse absinto,
Desse labirinto... ”

( Cris Passinato - 'Biografia' - 1973/**** )

18/Julho/2006:

“ VERSOS DE ORGULHO ”
- Charneca em Flor - 1930 -

“ O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito. ”

( Florbela Espanca - 'Biografia' - 1894/1930 )

19/Julho/2006:

“ DEPOIS DA MORTE ”
- Parnaso de Além-Túmulo - 1932 -

“ I

Apenas a dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi, amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.

Se vislumbrava o riso da alegria
Fora dessa amargura inalterável
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.

Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.

O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.

II

Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.

Não O via e, no entanto, em toda hora,
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.

Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;

Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.

III

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria !

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas. ”

( Antero de Quental / Chico Xavier - 'Biografia' - 1842/1891 )

20/Julho/2006:

“ O TEMPO QUE FOGE ! ”
- xxxx - 2006 -

“ Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final!

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar explicando aos medianos se estou ou não perdendo a fé porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus.

Caminhar perto delas nunca será perda de tempo.
Soli Deo Gloria ”

Pr. Ricardo Gondim: nascido em 14 de Janeiro de 1954, é pastor da Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, conferencista, pesquisador e escritor.

( Pastor Ricardo Gondim - 'Biografia' - 1954/**** )

21/Julho/2006:

“ NOIVA”
- xxxx - xx -

“ Noiva, acaso és, a real afogada?
És a louca do rio, noiva?
Se não és, por que cantas assim
E te enfeitas de flores?
Se não és, noiva, por que morres?
Por que levam teu corpo branco
Para tão longe – noiva – para tão longe?
Se tu és a que eu conheci menina
Por que não estás dormindo sobre o meu
peito, sossegada, noiva? ”

( Augusto Frederico Schmidt - 'Biografia' - 1906/1965 )

24/Julho/2006:

“ SONETO IX ”
- xx -

“Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto. ”

( Guilherme de Almeida - 'Biografia' - 1890/1969 )

25/Julho/2006:

“ A RUA DOS CATAVENTOS ”
- Soneto I -

“ Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando! ”

( Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994 )

26/Julho/2006:

“ MEUS OITO ANOS”
- Martim Cererê - 1928 -

“ No tempo de pequenino
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.

Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.

Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!

Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!

Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!

Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.

Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.

Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.

Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau. ”

( Cassiano Ricardo - 'Biografia' - 1895/1974 )

27/Julho/2006:

“ A RUA DOS CATAVENTOS ”
- Soneto II -

“Dorme, ruazinha... E tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos.

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração... ”

( Mario Quintana - 'Biografia' - 1906/1994 )

28/Julho/2006:

“ VEM ”
- xx -

“Vem! Enlaça-me em teus braços! Vem! Aperta a minha mão!
Eu te perdôo porque te amo, é todo teu o meu coração.
Vem! Esquece o passado! Vem comigo caminhar!
Enxuga o pranto de mágoa e dor, escuta o canto do nosso amor...

Alma gêmea de minh'alma, redimida no Caminho...
Dois mil anos de aliança, de esperança e carinho...
Vem, querido companheiro de jornadas e esplendores,
Através da eternidade, luz eterna dos meus amores.

Vem! Vamos oferecer uma prece comovida
Ao Nazareno, com gratidão, por tanto amor em nossa vida...
Vem! Jesus está sorrindo nas paragens do infinito,
Abençoando nossa união. Vem, meu amor! Dá-me a tua mão.”

( João Cabete - 'Biografia' - 1919/1987 )

31/Julho/2006:

“ CRIANÇAS REPRIMIDAS”
- A Rua de Nomes no Ar, crônicas, contos, sensações - 1988 -

“ André ganhou a bicicleta, chamou Daniel, os dois correram para o elevador, desceram para o playground. Voltaram cinco minutos depois, murchos, desiludidos.

— O que aconteceu?
— Não se pode mais andar de bicicleta lá embaixo.
— Por quê?

— O homem não disse. Só falou que era proibido. Telefonei ao síndico. Ele confirmou. Disse que havia muita bicicleta no prédio, que estavam ocorrendo acidentes, atropelaram uma velha e rasgaram a calça de um faxineiro.

— Por que então não fazem horários para os grandes? E outro para os pequenos?
— É difícil, mas vamos estudar, ver o que se pode fazer.

Passaram-se semanas, nada foi feito. O prédio onde Daniel e André moram é rodeado de grades. E de placas indicativas. E cheio de proibições. Uma delas é curiosa: crianças e babás não podem ficar na parte da frente, onde existe um pequeno jardim. São obrigados a se amontoar atrás, onde há o playground mínimo, com sua quadra e brinquedos. Dizem que é para evitar chacrinhas, as babás ficavam namorando operários de construções vizinhas, a frente do prédio era uma zorra só.

André está andando com sua bicicleta dentro de casa. Corre para lá e para cá pelos corredores do apartamento. Limitado, sufocado, triste. Não dá para integralmente desfrutar seu brinquedo. Perto, não existe praça, uma área maior de lazer, um espaço descontraído para correr.

Os apartamentos não foram feitos para crianças. Os prédios, muito menos. Os edifícios têm conselhos que administram. Surgem as leis, sempre repressivas. Mais fácil proibir criança do que tentar encontrar soluções para os problemas que surgem. Dia desses, na televisão, ouvi Fanny Abramovich mostrando como as crianças estão marginalizadas dentro destas estruturas. Qual a criança que consegue apertar os botões dos elevadores? Os painéis são altos. Talvez até mesmo para se evitar que as crianças fiquem apertando, não é? O orgulho do Daniel e do André quando entram comigo no elevador é justamente mostrar que cresceram. Apertavam o 1, o 3, o 5. Depois veio o 7, o 9, o 11. O 13 continua mais alto, o Daniel, que é o maior, ainda não alcança. Viram que estimulante? Com os painéis altos, as crianças querem crescer, ficar fortes ... Tomam algum produto.

A criança tem sido usada e utilizada. Qual o comercial de televisão que não emprega uma criança, a fim de comover pais e mães? Dentro desta sociedade, as crianças estão adquirindo valor de troca, valor comercial. Equivalem a um produto colocado em mercado e disputado. No entanto, quem se lembra quando é chegado o momento de vê-Ias como gente, seres humanos que precisam de carinho, de brinquedos, de estímulos, de espaços?

Existe um parque grande e bonito em São Paulo: o Ibirapuera. Nos fins de semana, ele é aberto ao público, para que a gente vá passear com os filhos. No entanto, ele também é aberto aos motoristas. E que pai não fica assustado vendo os carros cruzarem velozes pelas alamedas asfaltadas, indiferentes aos avisos de Pare, Cuidado, Devagar, Crianças e etc.? Sem veículos, que tranqüilidade seria o Ibirapuera. Bom para passear, curtir, os pais sem a mínima tensão, vendo que os filhos podem atravessar as alamedas sem perigo. E não custa nada. Os carros deviam ser deixados na porta do parque. Deste modo, obrigariam os motoristas a um pouco de exercício, porque andar a pé faz bem. Assim, aquele coração ameaçado continuamente pelo stress provocado pelas tensões no trânsito, encontraria uma compensação nas caminhadas pelo meio do verde. Olha só, dois coelhos numa só paulada. Tranqüilidade para as crianças, repouso para o coração. ”

( Ignácio de Loyola Brandão - 'Biografia' - 1936/**** )

 

Mensagem do Dia - Esta página mantém Mensagens de Otimismo e Poesias Diversas para o seu Deleite. This page keeps information concerning many Sublime Poetry and Messages
Portal
Nosso São Paulo
- www.nossosaopaulo.com.br